Eu cresci nos anos 90. Uma época em que, para quem não tinha TV a cabo, só restava assistir a vários desenhos clássicos das décadas anteriores reprisados até a exaustão como “Caverna do Dragão”, “Pole Position”, “Thundercats”, “He-Man” e alguns mais recentes que passavam na TV Cultura como “Doug”, “Os Anjinhos” e As Aventuras de Tintim, baseado nos quadrinhos de 1929 (mas nem parece que ele tem tudo isso) do autor belga Hergé.

Tintim é um jornalista de topete avermelhado que tem como melhores amigos o seu cão Milu e o incrível, ranzinza e mal humorado Capitão Haddock, um lobo do mar. Os três dão voltas pelo mundo e enfrentam diversos perigos, de vilões soviéticos a maldições do antigo Egito, esbarrando nos mais excêntricos personagens como Dupont e Dupond (muitos julgam que eles são irmãos, mas não são, note a diferença nos nomes) e o professor Girassol.

Já rolaram diversas lendas sobre uma adaptação para as telas do cinema, uma das mais absurdas que ouvi era que Van Damme, também belga , adoraria interpretar o personagem, que sempre foi jovem. Ainda bem que os titios Spielberg e Jackson resolveram fazer uma trilogia de animação com captura de movimento. Spielberg dirigiria a primeira parte, O Segredo do Licorne, e Jackson a segunda parte e a terceira parte sem diretor definido.

Para não ser um filme de origem, Spielberg e sua equipe optaram por abrir a trilogia compilando três histórias (O Carangueijo da Pinça Dourada, O Segredo de Licorne e O Tesouro de Rackham, o Terrível) para introduzir a já conhecida reputação do repórter através de recortes em seu apartamento, e trazer o Capitão Haddock às telas. Tintim está em uma praça posando para um desenhista, enquanto um batedor de carteiras está furtando todas as pessoas que passeiam. O jovem repórter encontra um antigo navio e resolve comprá-lo, só que logo após o arremate, dois estranhos personagens, um atrás do outro, querem, a qualquer custo, adquirir a réplica. Esse navio é o Licorne, que guarda um dos maiores segredos e maldições da família Haddock.

Ok, vocês querem saber da animação, né? Vale a pena? Muito! Os movimentos de câmeras e a movimentação dos personagens estão suaves e detalhistas. Devemos lembrar que não é um filme e tampouco se propõe ser realista. As Aventuras de Tintim tem sim uma modelagem de personagens impecáveis, só que não chega a ter olhos cheios de vida ou uma textura que funcionaria, se assim podemos dizer, interagindo com humanos sem roupas de captura de movimento. A graça de ser um desenho é justamente ser capaz de criar peripécias que em um filme não ficariam críveis (tipo as escapadas da morte de qualquer 007), como uma das muitas fugas em que Tintim, Haddock e Milu se metem. Aliás, é assaz confortante ver que o humor é pontual em todo o filme, as sequências de ação são divertidas e emocionantes.

É fácil reconhecer a direção de Spielberg aqui. Por mais que seja uma animação, temos diversos dos vícios (ou cameos) dele como os “lens flares” ou planos que enquadram um céu estrelado enquanto um personagem olha para cima. Há também uma homenagem nada sucinta A Tubarão e outra coisa bem divertida, e que serve para mostrar o quanto o topetudo se mete em encrenca, logo na abertura. :)

A trilha sonora foi o que mais incomodou durante todo o filme. Apesar do começo muito bom e empolgante, não há nenhuma linha marcante que você vá cantarolar ao sair do cinema. Isso mostra que esse “Indiana Jones para crianças” (como o próprio Spielberg classifica) falha em não ter uma música marcante de John Williams (cadê os grandes temas Johnny?) como nos filmes do personagem interpretado por Harrison Ford.

Antes que eu me esqueça, vamos todos, novamente, mais uma vez, elogiar o trabalho de Andy Serkis. A voz e movimentos que ele dá ao Capitão Haddock faz com que este seja o melhor personagem do filme: engraçado e comovente.

Se dependesse dos meus esforços, como um fã, eu levaria várias aventuras de Tintim para o cinema. Pensemos assim: com a captura de movimento muitas histórias podem ser rodadas sem necessariamente que os atores estejam com a mesma idade. Claro que a intenção dos produtores é fazer mais filmes se eles ganharem mais dinheiro.

E eu perdôo o Spielberg pelo Cavalo de Guerra.