
Numericamente, vivemos um dos momentos mais agitados em termos de adaptações de livros de fantasia para o cinema. Os últimos três anos têm sido grandiosos para o gênero, mas toda essa quantidade de filmes causa cansaço e, inevitavelmente, prejudica tanto as produções — que aceleram o passo para estrear antes de seus concorrentes diretos — quanto o público, que começa a considerar tudo a mesma coisa. Eragon, Ponte para Terabítia, Stardust – O Mistério da Estrela e A Bússola de Ouro que o digam. Mas a estréia de As Crônicas de Spiderwick parece aliviar um pouco toda essa correria.
À primeira vista, Spiderwick já tem uma vantagem em relação a seus concorrentes: a interpretação de Freddie Highmore, o nome mais bem-sucedido do mercado quando se fala em filme de fantasia. O garotinho inglês, que completou 16 anos em Fevereiro, mostra-se um competente ator de gênero e, quase sempre, leva seus filmes ao sucesso. A primeira referência de peso de sua carreira foi Em Busca da Terra do Nunca, no qual interpretava ninguém menos que o alter ego de Peter Pan. Tudo começou, porém, quando ele pisou na sagrada terra de Viviane em As Brumas de Avalon, a minissérie da TNT, na qual ele viveu o jovem Rei Arthur. Completando a filmografia de peso: A Fantástica Fábrica de Chocolate, Arthur e os Minimoys e o recente A Bússola de Ouro, emprestando a voz para o daemon (DÍMOM é a MÃE!) Pantalaimon, além do despretensioso, mas divertido, Cinco Criaturas e a Coisa.
Agora, neste filme, Highmore vive dois personagens — os irmãos Jared e Simon Grace — que integram uma família em transição depois da partida do pai. Encontramos a mãe (Mary-Louise Parker, de Weeds), os garotos e a irmã esgrimista, vivida pela talentosa e angelical (…) Sarah Bolger (que fez a pequenina de Terra de Sonhos, de Jim Sheridan), mudando-se para o interior. O destino é a antiga casa da família, propriedade de Arthur Spiderwick (David Strathairn, de Um Crime de Mestre), um explorador que descobriu o segredo das criaturas mágicas. Ah, ele foi raptado por fadas! o_O =D
O livro resultante de seus estudos contém as tais Crônicas de Spiderwick, o legado de uma vida e também um terrível segredo que, caindo nas mãos do ogro Mulgrath (Nick Nolte, se divertindo numa aparição curta), pode significar o fim de todos os seres vivos. Arthur Spiderwick defende que o mundo mágico existe, porém nós é que não podemos vê-lo. Mas, depois que cai a cortina, não há limites para as maravilhas que nos esperam. E, como em toda boa história, os vilões também estão por lá.
Só que os acontecimentos de As Crônicas de Spiderwick fazem sentido com o momento vivido pela família Grace. Embora Jared — o filho rebelde — não saiba, o pai das crianças deixou de contar um segredo terrível ao garoto e isso catalisa diversos conflitos entre ele, os irmãos e, especialmente, a mãe. É Jared que encontra o livro de Spiderwick e, mesmo contra todos os avisos, resolve abrí-lo, se enfiando no meio de um rodamoinho de descobertas e de decisões que vai levá-lo a entender seus próprios medos e enfrentar provações tão terríveis, que nem mesmo Arthur foi capaz de superar oitenta anos antes.
Tudo é muito bem arranjado neste filme. O roteiro é honesto dentro dos conceitos do gênero, não propõe nenhuma grande novidade e é efetivo quando trata dos problemas familiares. “Foi importante trazer o conceito de realidade com toda a situação familiar”, explica o roteirista Karey Kirpatrick, um sujeito que escolhe bem até mesmo as palavras que usa quando vai falar, em entrevista à revista Sci-Fi News (e ao Judão, óbvio!), em Los Angeles. “Era essencial que aquilo que acontece na vida real se refletisse também nos problemas envolvendo o mundo mágico e que a eventual solução estivesse no encontro desses dois universos, ou seja, eles precisavam encontrar uma nova forma de harmonia, tanto dentro quanto fora de casa, para sair de todo aquele caos”. Freddie Highmore tem ótimas oportunidades de atuar tanto sozinho quanto em grupo. Aliás, não fosse um deslize ou outro dos efeitos, as cenas entre os irmãos gêmeos ficariam impecáveis.
E é justamente essa sensação de coesão e organização que faltou, por exemplo, ao muuuuito rápido A Bússola de Ouro.Spiderwick não aspira a recordes de bilheteria e talvez, por isso, possa se dar ao luxo de dosar drama e ação, enquanto seus personagens são construídos e a mitologia apresentada ao público. Não li os livros por opção e, como total leigo nessa trama, posso afirmar que, há tempos, um filme de fantasia não soava tão agradável e atraente como esse. Seus personagens são autênticos, têm problemas próprios e não agarram a fantasia como maneira de fugir da realidade; sendo, na verdade, envolvidos numa trama alucinante, que, por fim, vai guiá-los em suas vidas pessoais. “Fui chamado para trabalhar no roteiro no meio das filmagens e tivemos que adaptar muitas coisas, mas fiquei feliz quando os autores explicaram que o importante era pegar a essência do mundo que eles criaram e montar algo novo a partir dali”, lembra Kirkpatrick. “Não precisei ficar prestando atenção a cada palavra e conceito do livro para uma reprodução exata, pude chegar a um resultado que pertencesse ao mundo de Spiderwick sem ser totalmente literal. Tudo ficou muito mais autêntico e passou uma sensação de plausibilidade e novidade até mesmo para quem já leu todos os livros”.
As criaturas de Spiderwick foram feitas com notável cautela pelos técnicos da Industrial Light&Magic, que não cometeram nenhum deslize e inseriram trolls, goblins, fadas e os demais monstrengos direitinho no filme, com o devido contraste e balanceamento dos bichos com o cenário em si. Tal discrição deixa todo o espaço para o roteiro, que é o que realmente interessa num filme desses. Afinal, sem uma boa história, presta-se atenção apenas no desfile de efeitos especiais. E história, Spiderwick tem de sobra.
Novos Caminhos para o Gênero
Ao contrário do divertido Arthemis Fowl, que aposta num mundo mágico cheio de tecnologia e artimanhas, Spiderwick recupera o senso de natureza e a necessidade de balanço entre os dois mundos. É como se o esgotado Livro de Fadas Prensadas de Lady Cottington, do Phyton Terry Jones, tomasse forma e suas criaturas voassem mundo afora, sem que ninguém visse, é claro. Existem regras, sempre regras, que impedem a descoberta dos segredos do livro, porém, ao mesmo tempo em que precisam resolver o enigma, os jovens irmãos são forçados a testar esses limites, mesmo que coloquem a própria vida em risco para chegar a uma conclusão. Ou seja, o que vale aqui é a inteligência e a esperteza. Nada de passe de mágica para os personagens ficarem superpoderosos.
De acordo com Kirkpatrick, a pesquisa alternativa ao material disponibilizado pelos autores também ajudou muito. “Mas aí você entra no Google, escreve ‘fada’ e aparecem dezenas de milhares de páginas. Por onde começar? Nesse ponto, o Guia de Campo de Spiderwick ajudou muito, pois eu sabia quais os elementos mais presentes na série e como eles deveriam ser inseridos no roteiro. Nada ficou exagerado”, orgulha-se o roteirista. E ele está certo. O bom-senso reina em As Crônicas de Spiderwick.
Mais que um longa-metragem para família, As Crônicas de Spiderwick pode ajudar essa “geração MSN” a encontrar um pouco dos princípios morais e éticos que, infelizmente, inexistem nos mundos virtuais, programas de bate-papo e comunidades do Orkut. Afinal de contas, é disso que contos de fadas tratam: difundir conceitos de ética e respeito que regem e que mantêm sóbria nossa sociedade há séculos. De qualquer modo, temos aqui um merecido respiro em meio a tantas estréias apressadas no mundo da fantasia. Judão RECOMENDA! mesmo para quem se acha adulto demais para essas coisas!
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As Crônicas de Spiderwick (The Spiderwick Chronicles, EUA 2008) Direção: Mark Waters Roteiro: John Sayles e Karey Kirkpatrick Elenco: Freddie Highmore, Mary-Louise Parker, Nick Nolte, Joan Plowright, David Strathairn, Seth Rogen, Martin Short Site Oficial: AsCrônicasDeSpiderwick.com.br Nota do JUDÃO [ratings] |
