Quando penso em biografias, livros escritos por alguém que dedicou anos para contar a história de outra pessoa, imagino como se fosse um mosaico: várias peças diferentes que juntas montam uma imagem. Ou seja, uma biografia são várias histórias, de várias pessoas, íntimas ou inimigas, que visam contar a vida de alguém específico. Mas como fazer isso no cinema, em duas horas e pouco, sem esquecer nenhum “personagem”, detalhe obscuro (afinal os inimigos querem mesmo ver tudo detonado) ou uma visão justa? Eu vejo J. Edgar, de Clint Eastwood, como uma tentativa de ser uma história neutra, mas ele se esforça tanto que acaba não mostrando outros lados da história de J. Edgar Hoover, o cara que idealizou o FBI para se tornar uma força policial única e acima de tudo. Oi? Acima do que astronautas e presidentes? SIM.
O que chamo de tentativa não é bem culpa do Clint por completo. J. Edgar sabia que informação era uma coisa valiosa no mundo da política e não deixava escapar nenhum segredo seu aos quatro ventos e, no caminho contrário, ele tinha informação de todos. Seus segredos eram tão bem guardados que ele não tinha amigos, apenas dois fiéis escudeiros: Helen Gandy, sua eterna secretária, e Clyde Tolson, seu vice-diretor e “amante”. SIM, entre aspas, porque pelo que mostrou no filme nunca houve intimidade entre os dois, eles eram companheiros, se amavam, MAS nunca tiverem contato físico intenso a não ser durante uma briga. Parece que tudo é um quase.
Quando tudo isso é mostrado em vindas e idas no tempo para mostrar o chefe do FBI ditando seu livro e os vários biográfos que passaram por ele, cada um com um defeito que passa quase despercebido, mostramos o quanto Clint Eastwood quis mostrar que o personagem tinha uma psique complicada e realmente era um nutcase bem paranoico, no fim das contas.
E mesmo querendo combater corruptos e criminosos, a vaidade era o principal inimigo de Hoover, que queria aparecer em histórias em quadrinhos — que ele mesmo patrocinava –, tirar fotos ao lado de criminosos que “ajudou” a prender, tudo para, como ele tenta pregar, proteger o país que tanto ama e para impressionar a mãe. Sim, um complexo de Édipo mal resolvido parece ser o trauma que transforma J. Edgar em um metódico e manipulador ser humano.
Pior do que ter de aguentar a falta de relevância em alguns assuntos da vida de J. Edgar, é ter de olhar à péssima maquiagem aplicada no DiCaprio para envelhecê-lo e, ao mesmo tempo, deixa-lo vagamente parecido com Hoover em seus últimos anos. Só não vamos culpar sua atuação que está grandiosa em muitos momentos, ainda mais quando seu J. Edgar Hoover aparece discursando. Contudo, o problema é: parece que Clint Eastwood não quer que o ator principal carregue o filme nas costas e enche de vários coadjuvantes ilustres, mas que tem menos de cinco minutos na tela — até uma ponta de Lea Thompson (mãe do McFly) que vale só para mostrar algo que estava claro durante o filme todo: GAY — e não colaboram e nem atrapalham (poderia ter economizado uns milhões chamando atores menores).
Enquanto Naomi Watts aparece como uma secretária submissa e sem nada de mais para apresentar, o braço direito de Edgar é cheio de sorrisos e boas vontades, quase abanando o rabinho, ou seja, a indicação para o SAG é um exagero tão grande quanto o discurso de Nixon, que odiava o chefe do FBI, no final do filme.
Será que toda essa falta de aprofundamento era culpa do roteiro, da pesquisa ou a falta de informações? Nunca saberemos, afinal Hoover soube causar uma verdadeira queima de arquivo de várias pessoas ilustres e também de si mesmo. O que nos resta é acreditar que Clint Eastwood, assim como DiCaprio, estava intimidado por trazer essa biografia à tona, com muito para contar e muitos segredos obscuros. Sem levar demais para o pessoal e mostrando-o como herói por acidente, uma neutralidade inerente que mais ajuda a figura imponente e seus feitos — muitos ilegais –, a ficarem na história como grandes contribuições.
