Devo dizer que falar sobre adaptações é um pouco complicado. Pessoas que leram por ler não lembram de detalhes e logo não se preocupam com mudanças de roteiro, enquanto os fãs reclamam da mínima mudança de falas ou cabelo de personagens. Penso, por exemplo, em “Lanterna Verde”… Não é uma adaptação ruim, é um filme ruim. Porque ele é até bem adaptado e traz bastante do herói esmeraldino às telas. Pertenço ao meio termo, tento controlar o lado do meu cérebro que grita para certas mudanças e tento ver se a espinha dorsal, o fio condutor da história, e seus personagens fazem juz ao que foi criado. Senão eu seria apenas mais um daqueles que não querem uma adaptação, mas uma fidelização.
O escritor Stieg Larsson não aproveitou nem ao menos um décimo do seu sucesso como escritor de romances policiais. Quando entregou a trilogia Millennium à sua editora, não sabia que morreria de um ataque de coração, deixando os herdeiros feridos em sentimentos e felizes financeiramente. Com o sucesso de vendas de toda a trilogia, que rapidamente foi traduzida para diversos idiomas, logo o primeiro livro recebeu uma adaptação em seu país de origem, Suécia, e teve um sucesso razoável. Aliás, todas as três histórias foram adaptadas para o cinema sueco, mas com a preguiça que a população do Tio Sam tem para legendas, logo menos sairia uma versão por lá, e saiu, quase três anos depois, pelas mãos do cineasta David Fincher (de quem sou fã confesso).
A versão do diretor de “Zodíaco”, “Seven”, “Clube da Luta” e “A Rede Social” é mais ousada na mudança de história, QUASE preservando QUASE tudo que é essencial na obra. Quando uso esse advérbio em caixa alta (e vou usar bastante a conjunção coordenativa “mas”) quer dizer que são detalhes que, dentro do roteiro de Steven Zaillian, ele escolheu, em primeiro lugar, manter o mistério principal da trama, mas adaptando os personagens e suas histórias de maneira rasa. Lisbeth Salander, a garota com tatuagem de Dragão (o que dá o nome ao filme em inglês), não tem tanto tempo de tela merecido sendo que ela é a personagem principal em todos os aspectos e isso fica claro mais para o final do filme. Enquanto que a escolha de Daniel Craig para Mikael Blomkvist, um jornalista experiente e de fama ímpar na Suécia, não foi muito feliz. Afinal, a diferença de idade é o que torna a química entre os dois personagens principais realmente interessante, mas quando os dois se encontram na tela esse problema é tão brevemente resolvido…
Mikael Blomkvist publicou uma matéria de corrupção, máfia e tráfico de armas sob a tutela de importante empresário da Suécia. Só que, por falta de provas, acaba sendo processado e perde seu prestígio como jornalista-investigador e seu posto na revista Millennium, que ajudou a criar. Tentando se manter afastado das manchetes e dos inimigos jornalistas que só querem afundá-lo mais, ele vai até uma remota ilha, chamado por um importante empresário, Henrik Vanger, que lhe contrata para procurar sua sobrinha-neta, Harriet, desaparecida há mais de quarenta anos. A investigação parece ser em vão até novas pistas começarem a aparecer e todos os membros vivos da família Vanger parecerem totalmente suspeitos.
O problema maior dessa adaptação é que não existem pistas falsas ou nada que realmente faça o espectador se ater ao mistério e a solução do crime, ou parte dele, é bem chulé e preguiçosa, parte porque a edição não colabora para criar tensão (nem do tipo TAN TAN TAN) quando resolvem dividir a atenção entre Lisbeth e Mikael, cada qual no seu canto. O roteiro não levanta suspeitas tanto que quando VOCÊ (entonação de Zé do Caixão) começar a desconfiar de algum personagem é certeza que saberá quem é o assassino. Falta um pouco mais de ódio às mulheres sugerido pelo título e um pouco mais de violência, não necessariamente algo que remeta aos filmes de tortura que circulam nos dias de hoje, mas algo que quase chegue a ser repugnante para compensar a falta de aprofundamento nas investigações, que tem tudo a ver com violência + sexo + mulheres.
Na verdade, parece que o roteiro quer apenas criar uma expectativa no encontro iminente entre Lisbeth e Mikael, só que quando isso acontece vemos que não sairá muito disso. Digo isso porque ao tirar o mérito de protagonista da hacker-punk-gótica e deixando tudo em conversas e pistas rasas, Fincher acaba deixando o filme tedioso porque parece não dar atenção suficiente ao mistério. A desatenção é tanta que no início do filme, quando somos apresentados a Henrik Vanger e os pacotes que recebe todo ano, que levantam a suspeita do crime na família, esse assunto nunca mais é tocado.
Millenium: Os homens que não amavam as mulheres de David Fincher não tem um ritmo e nem uma montagem muita boa para auxiliar o roteiro escrito de maneira preguiçosa. Não é sobre adaptação que estamos falando, infelizmente, é sobre uma direção totalmente equivocada e uma escolha de corte mesmo, por mais que o diretor tenha optado por não encher de flashbacks inúteis — erro da versão sueca em querer ser muito fiel. Ele não foi feliz em focar em um assunto só e deixar, aparentemente, grande parte deles inacabados e ofuscando uns aos outros.
MAS a maior ousadia, e nessa parte Fincher consegue torcer o meu braço, é que ele mudou parte da subtrama mais importante e, no terceiro ato, focou totalmente em Lisbeth, que, dirigindo ou não os próximos capítulos da série, é a personagem principal da série como um todo (só que esse foco poderia ter ocorrido pelo filme todo, não?). Contudo, essa parte pouco importa para quem NÃO leu a série, ou seja, essa versão americana não agradará quem não conhece a trilogia em livros e está em busca de um bom suspense e tampouco os fãs, que por mais que gostem de Lisbeth também querem que a história do assassinato de Harriet seja bem contada.
Mesmo que seja um filme mais sucinto do que seu contemporâneo, não podemos comparar os dois, são duas adaptações diferentes, com focos diferentes e que escolheram caminhos diferentes. Infelizmente, o escolhido na versão americana deixa a desejar e MUITO e quem dera o problema fosse, apenas, adaptação de um livro.
