Não sou crítico de cinema. Nunca fui, não pretendo ser. Não entra na minha cabeça que existam técnicas que permitam uma análise completamente subjetiva sobre um filme — afinal, se quem quer que analise o filme não colocar suas emoções, experiências e opiniões no que diz e escreve, teríamos sempre as mesmas coisas. Se bem que sempre temos…Ah, deixa pra lá.

O fato é que, trabalhando há quase 10 anos cobrindo cinema, diariamente acompanhando bastidores, entrevistas, making ofs, muitas vezes eu assisti a filmes influenciado por tudo o que vi, seja de bom, de ruim ou de duvidoso. Foram poucas as vezes que toda a expectativa foi atendida — e, portanto, esse tipo de influência não é boa.

Mas, no exato momento em que você conversa com um ator, diretor, produtor, vê um filme “sendo feito”, ou ouve diretamente ideias, pensamentos e influências que levaram àquele filme ser feito, do jeito que o foi, sua perspectiva sobre o cinema de maneira geral muda.

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Muitas vezes queremos interpretar ou julgar idéias sem saber se o que e da maneira que julgamos foi pensado pelo diretor, roteirista ou sei lá. Ao ouvir o que essa pessoa pensou, ao ouvir a idéia que a fez produzir tudo aquilo, porém, a gente ganha uma base muito maior pra analisar.

Posso citar como exemplos recentes James Cameron e seu “Avatar”, cujo a maneira como tudo foi feito, com tecnologias inventadas e etc, mudou a maneira de como eu vi o filme; “Fúria sobre Rodas” e o diretor dizendo diretamente pra mim que teve a idéia do filme bêbado e era tudo simplesmente pra se divertir, sem se levar a sério; o elenco e o visionário diretor Zack Snyder, de “Sucker Punch”, que só melhoraram tudo o que eu já tinha visto; a apresentação de “The Darkest Hour” na Comic-Con, que colocou atores e diretores pra bater um papo com o jornalistas, o que nos permitiu conhecer o filme diretamente por quem o fez; e, o principal, pelo menos esse ano: “Planeta dos Macacos: A Origem”.

Rupert Wyatt dirige Freida Pinta em Planeta dos Macacos: A Origem

No início de Junho estive em Los Angeles para participar de um evento que visava, literalmente, explicar o filme. Faltando pouco mais de dois meses para a estréia, na época, apenas uma imagem e dois trailers haviam sido divulgados — e carregar “Planeta dos Macacos” no título seria um grande risco.

O relato dessa minha visita à Fox, as entrevistas e tudo o que eu vi você já deve ter visto também e, se eu consegui passar tudo o que eu queria lá, você também passou a no mínimo dar créditos ao filme. Poderia ser uma merda? Poderia. Mas as cenas de bastidores, as não finalizadas, toda a técnica utilizada e, principalmente pra mim, o vídeo que fez Rupert Wyatt conseguir se sentar na cadeira de diretor do filme — uma edição de várias imagens de Chimpanzés inteligentes, guerras e humanos fazendo humanices, tudo baseado na ideia de “Don’t fuck with the mother nature” — davam um tom mais alto a esses créditos. Uma importância maior: tornaram esse filme, pra mim, o mais esperado do ano.

Pois bem, meus amigos… Planeta dos Macacos: A Origem é do caralho.

E ainda acho, sinceramente, que esse “A Origem” do título não faz jus ao que se vê no filme. “The Rise”, que mais corretamente seria “Ascensão”, poderia ter sido traduzido por aqui como o “Surgimento”. Ficaria um título horrível, mercadologicamente falho, mas é isso o que vemos na tela.

Caesar (Andy Serkis) e Will Rodman (James Franco)

Esqueça os humanos usando próteses, falando com a menor quantidade de músculos faciais existentes. Esqueça, na verdade, os filmes originais, quando você for pro cinema. “A Origem” explica porque é uma prequência nos seus primeiros minutos — e, dali pra frente, é um filme que se aguenta sozinho, baseado nessa ideia muito mais próxima da gente, mostrando como e porque chegamos àquele ponto em que a Estátua da Liberdade está enterrada na areia, ou Abe Lincoln virou ~Ape~ Lincoln.

Tudo isso é mostrado de uma maneira que te incomoda. Não é possível sentar na poltrona e relaxar, aproveitar a sessão — e eu ainda li os quadrinhos que servem como prequência do filme, que estão disponíveis de graça no comiXology online, para ler no site, iOS ou Android, o que significa que já cheguei tenso ao cinema. Rupert Wyatt esfrega na sua cara o tempo todo que você não deve se meter com a mãe natureza, e o faz de uma maneira científicamente plausível.

Por exemplo, ouvi muita gente zombando do trailer, achando meio absurda a ideia de macacos superarem humanos com lanças e força física, apenas. Se esse é um medo seu, relaxa — eles não superam os humanos. Pelo contrário, até: eles não querem matar ninguém. Eles só querem ser livres. São animais, tem instintos. Não adianta nada tratar como humano, achar que faz parte da família ou, o que é pior, achar que os bichos não são nada além de números, de objeto de experiência científica — e é nessa displiscência, e na hora de tratar mal o bicho, que mora o perigo. ;)

Aliás, será que o Draco Malfoy não aprendeu nada nos seus anos em Hogwarts?

E como se não bastasse uma história muito bem contada, plausível e que se encaixa na franquia toda, há também aquela tal de “magia do cinema”, brought to you, novamente, pelos lindos da Weta Digital e Andy Serkis, que interpreta Caesar. Interpreta MESMO, já que todos os macacos mostrados no filme foram vividos por humanos, usando a mesma técnica de Avatar e alguns extensores pros braços. ;)

Se você achou impressionante o trabalho deles em King Kong, o que fizeram nesse “Planeta dos Macacos” é de chorar de emoção por vivermos em uma época em que isso é possível — e não à toa esse filme, há vários anos na gaveta, demorou a ser feito, o que mostra, aliás, como a Fox tá começando a pensar um pouco melhor nas coisas que faz — é o terceiro filme deles, na sequência, que são REALMENTE bons.

Em alguns momentos, porém, parece ser tudo um pouco forçado demais, um pouco “podia ser melhor”. Acho, porém, que é uma questão de você acreditar, de verdade, naquilo que tá sendo mostrado, no que tá sendo contado. Isso muda absolutamente tudo.

“Planeta dos Macacos: A Origem” merece tudo o que estão falando de bom sobre ele, merece estar há duas semanas liderando as bilheterias dos EUA e merece uma edição em Blu-Ray recheada de extras e imagens de making of, pra aumentar ainda mais essa experiência cinematográfica. Muita coisa já foi liberada nas internets (tudo o que nós publicamos sobre o filme você encontra aqui), mas ainda assim. Esse filme merece muito mais do que ser uma simples prequência de um filme famoso.

Até porque ele É muito mais.