Watchmen
Eu me lembro direitinho, como se fosse hoje, quando surgiu o último vídeo de 300 e nele um easter-egg anunciando o próximo filme do visionário diretor Zack Snyder. Era o Rorschach, contra a Lua, com o bottom do comediante na mão. Foi no dia 09 de Março de 2007. Há praticamente dois anos.

Foi ali que tudo começou. Foi ali que o mundo teve plena noção de que uma das maiores obras literárias da história iria virar filme. A maior obra dos quadrinhos da história iria sucumbir à Hollywood. Como é que isso iria acontecer? Sabíamos da capacidade de Zack Snyder, especialmente por conta de 300… Mas Watchmen era importante demais. Era uma obra perfeita demais. Como isso seria feito? Será que seria possível?

Durante esses dois anos, passamos por, além de 300, Batman: O Cavaleiro das Trevas, Homem de Ferro, o Incrível Hulk. Adaptações de quadrinhos extremamente respeitosas ao material original. Foi uma virada nesse mundo, não há dúvidas. Foram adaptações que fixaram um novo “gênero” de cinema. Batman, então, ultrapassou o gênero, fechado, sendo uma das maiores bilheterias da história dos cinema.

Mas ainda faltava aquela obra definitiva. Aquela obra que iria mostrar que nada foi em vão. Aquela obra que vai mostrar pra um publico infinitamente maior o que podem ser as histórias em quadrinhos.

Dia 06 de Março de 2009. Watchmen chega aos cinemas do Mundo todo. Crítica dividida, polêmicas, processos… Watchmen chega às telonas com duas horas e quarenta minutos de informação atrás de informação, formando uma obra extremamente complexa, praticamente impossível de ser comentada.

Eu assisti ao filme apenas uma vez e passei o resto do dia pensando em tudo o que vi, pensando em assistir ao filme mais algumas vezes. Pensando não, me obrigando a assistir ao filme quantas vezes forem necessárias, para que eu possa absorver tudo o que eu vi. Isso, por si só, já é um ótimo sinal: por mais que inicialmente a gente só consiga filtrar os defeitos que a produção tem, o simples fato de pensarmos dessa maneira já dá uma bela idéia do que foi que conseguiram fazer.

Fato: é a melhor adaptação de uma história em quadrinhos já feita. É a melhor adaptação de uma história específica possível. Zack Snyder demonstrou um respeito absurdo pela obra original. Colocou lá o seu estilooooow motiooooon, mas praticamente tudo o que vemos na telona é o que vimos nos quadrinhos.

E aí surge, por incrível que pareça, o primeiro problema da produção: uma fidelidade grande demais.

Até a cena da rebelião da prisão, o ritmo do filme é perfeito. A gente vê o que tem de ver, o que precisa ver. Se emociona com o fato de vermos aqueles personagens se tornando “reais”, bem na nossa frente. É uma magia impressionante que, ao final da rebelião, quando enfim os três últimos Watchmen se reúnem para resolver a história, acaba se perdendo. O filme então acelera e o ritmo perfeito do início vai pro saco. Outros problemas, então surgem, e vão até o final: não fica muito claro porque todo mundo odeia os “Máscaras”; os flashbacks praticamente somem; o New Frontiersman é um jornal inexistente; e tudo isso, agora eu percebo, são pontos CRUCIAIS para que a obra, nos cinemas, seja tão importante quanto a dos quadrinhos.

Claro que eu digo isso porque eu li Watchmen algumas vezes, sou fã declarado dessa história, mas pra mim ficou claro que o filme funciona muito melhor pra quem já leu os quadrinhos. Nós temos plena noção do momento histórico em que Watchmen foi escrito e publicado, o significado de tudo aquilo, conhecemos muito bem os personagens… Mas será que quem não leu não gostaria de saber mais sobre cada um dos Watchmen, mais sobre os Minutemen, mais sobre o ódio das pessoas por eles, mais sobre o futuro apocalíptico do Mundo?

Os personagens também podiam ser um pouco mais desenvolvidos. Uma única cena explica o Comediante, é simples. Mas os outros… Faltou mais sobre a relação dele com a Srta. Júpiter, os problemas dela com a Espectral II… Faltou mais violência “sexual” nessa história.

O Dr.Manhattan ficou bem, mas ainda acho que ele poderia ser mais “superior”, mais uma figura divina do que um cara azul que anda entre nós e convive normalmente com homens.

O Ozymandias é meio que um zero à esquerda. Ele é um dos principais personagens e só age como um vilãozinho meia boca. Podiam ter explorado mais…

Mas o Rorschach… É PERFEITO. A interpretação de Jackie Earle Haley deu vida a uma máscara. Literalmente, ela virou sua cara. Rorschach é um, Walter Kovacs é outro. É IMPRESSIONANTE. Eu diria que merece um Oscar, especialmente depois do precedente criado por Heath Ledger… Mas duvido muito que vá acontecer algo assim de novo, tão cedo. Mas que merece ser reconhecido por TODO MUNDO pela sua atuação, merece. O cara é foda.

O filme, talvez, precisasse mesmo de uma adaptação maior, ao invés de literalidade, o filme ficasse mais compreensível, com um ritmo melhor. Afinal, Watchmen não é uma história “simples” e “objetiva” como 300. São trocentos quinquilhões de detalhes que, juntos, formam a história. Nos cinemas, não temos boa parte desses detalhes… Mais um ponto pro DVD e Blu-Ray, com o director’s cut, que nos dará 30 minutos a mais de filme, com Contos do Cargueiro Negro no meio da história — além de Sob o Capuz, como extra.

A única coisa que vai faltar, mesmo, é a história do navio… Se fosse possível, de alguma maneira, colocá-la no filme, teríamos a Lula Gigante, aka Bucetão. FOI ISSO o que acabou causando as famosas explosões atômicas, no final (se isso for spoiler, se interna). Goste você ou não, foi realmente a melhor solução para esse problema.

Problema que eu acho que ninguém conseguiria evitar. Eu pensei, desde que assisti ao filme, em trocentos milhões de jeitos de colocar tudo isso junto. A mais próxima que cheguei foi numa campanha viral MUITO maior que a do Batman. Seria sensacional, colocar todo mundo a par do “mundo de Watchmen”, tirando certas explicações do filme. Até rolou algo assim, com o New Frontiersman, mas é algo tão fechado, algo tão “só os fãs estão acompanhando”…

O que isso significa? Bom… Definitivamente, Watchmen é impossível de ser adaptado. Mas, o foi, da melhor maneira possível. Da maneira mais respeitosa possível. Acho que se Alan Moore assistisse ao filme, ele teria um monte de coisas pra reclamar, como sempre. Não tiraria a razão dele, como sempre… Mas é fato que, com Watchmen, ele no mínimo teria de parabenizar Zack Snyder pela tentativa. Ou agradecer pelo respeito. Mesmo sendo a tia véia que é, o cara é um gênio. Snyder e Dave Gibbons têm plena noção disso… E entregaram aos fãs o que era possível entregar.

Te peço um favor, pra quando você for assistir ao filme — e eu sei que vai. Desarme-se. Não vá com todas as pedras do mundo prontas pra tacar ao primeiro sinal de “não gostei”. Você vai encontrar. Assista ao filme mais algumas vezes. Se mesmo depois disso, você ainda achar uma completa e fétida bosta, I rest my case. Mas… Dê uma chance.

Watchmen é aquela produção que vai dividir águas. Vai mostrar o que é certo e o que é errado em adaptações de histórias em quadrinhos. DEVERIA servir pra mostrar isso, pelo menos. Mas é também a obra que transformou a melhor história que já li, com os melhores personagens já criados, em coisas… “Reais”. Eu, novamente, me emocionei com o monólogo do Dr. Manhattan, em Marte. Pois eu consegui “viver” aquilo. Não só na minha cabeça. Eu vi aquilo acontecendo.

Eu posso dizer, sem dúvida alguma, que hoje sou um nerd mais feliz. =]

Watchmen – O Filme
(Watchmen, EUA 2009)

Direção: Zack Snyder

Roteiro: David Hayter, Alex Tse

Elenco: Patrick Wilson, Jackie Earle Haley, Matthew Goode, Billy Crudup, Jeffrey Dean Morgan, Malin Akerman, Carla Gugino, Stephen McHattie, Matt Frewer