
Metrô, estação da Sé lotada. Em meio ao mar de gente e todo o empurra-empurra eu e um grupo de amigos fazemos algumas piadas e planejamos a rota praquela noite. De repente começa um burburinho e percebo que as pessoas ao meu redor começam a olhar pra trás com cara de espanto, apontar e fazer alguns comentários. “Fodeu, é treta”, pensei, e fiquei na ponta do pé pra conseguir enxergar melhor. Vejo então a multidão abrindo passagem para um grupo de pessoas e percebo qual o motivo das risadinhas: Darth Vader acaba de embarcar em direção “Palmeiras-Barra Funda”.
A Virada Cultural se tornou de uns tempos pra cá o maior acontecimento cultural de São Paulo. Um evento que todo ano move milhões de pessoas para as mais de 700 atrações que acontecem durante 24hrs. Porém, esse ano, a virada ganhou personagens diferentes: em meio aos roqueiros, mendigos, boys, hippies, modernos e tiozões que circulam pelo centro da cidade de madrugada surge um exército de stormtroopers liderados pelo Darth Vader do metrô e uma princesa Leia, seguidos por alguns trekkers e outros personagens de clássicos Sci-Fi. Seu destino final? A praça Roosevelt, lugar onde este ano aconteceu o “Dimensão Nerd”, atração da Virada destinado aos nerds de São Paulo.
“Isso é pra provar pra todo mundo que não acreditou no evento que nerd sai de casa SIM!” diz Lu, uma das coordenadoras que corria segurando seu rádio pra cima e pra baixo durante evento, com um certo ar de vitoria. “Foram 4 semanas de muito trabalho e esta dando tudo certo.”
Sim, os nerds saíram de casa e apareceram por lá em peso.
Três espaços – ou andares – formavam o evento: O estacionamento em baixo da praça, onde acontecia uma balada com projeção de filmes e exposição dos trabalhos dos alunos da escola Melies; o vão livre da praça onde estavam os stands, as mesas de RPG e a maioria das atrações; e a parte de cima que foi o ponto final das paradas e desfiles e onde também ocorreram algumas batalhas e lutas (lutas com espadas e machados — o que atraiu também vários policias para o local, que deve ter sido um dos mais seguros da virada =P ).
O evento ganhou um grande destaque na mídia por ser o “diferente” nessa virada, mas em sua maioria são matérias que apenas falam sobre pessoas fantasiadas ou mostram um único lado do evento. O que é quase um crime, pois o que vale a pena mesmo ser falado e registrado do Dimensão Nerd é a mistura das “panelinhas” que ocorreu ali no vão da praça.
Medievalistas conversando com trekkers enquanto assistiam a uma luta de sabre de luz, potterianos olhando os últimos lançamentos de mangá. Esse era o clima do evento, tudo junto e misturado.
A validação da cultura nerd pela prefeitura de São Paulo é a coroação do “boom” que tivemos nos últimos tempos. Hoje em dia ser nerd é cool. Contudo, o preconceito ainda é muito grande, não só com os nerds mas especialmente entre os nerds.
“É a primeira vez que o serviço publico banca um espaço exclusivo para os nerds. A presença de todas essas “tribos” aqui faz também com que eles percebam que pertencem ao mesmo nicho, e se unindo eles conseguem abrir mais espaço.”, diz Douglas Ricardo Guimarães, um “D´s” como estavam sendo chamados os produtores/idealizadores do evento, e que no meio da correria toda conseguiu arranjar um tempinho pra conversar comigo.
Quando eu perguntei a ele se esse tipo de evento colabora para a divulgação da cultura nerd ele respondeu que “o mercado cultural já foi tomado de assalto pelos nerds, os grandes estouros de bilheteria nos cinemas são coisas diretamente relacionadas a este mundo, e isso com certeza atrai curiosos para eventos como esse. O fato de ser de graça também contribuiu para que pessoas que não pagariam pra ver esse tipo de coisas viessem conhecer. Mas quem é nerd é nerd desde criancinha, está no sangue. Eventos assim ajudam essa galera a se unir, pra saberem que eles não estão sozinhos, podem freqüentar eventos maiores e trocar experiências.”
“Feiras como a San Diego Comic – Con e a E3 tem grandes iniciativas privadas por trás, apoio de estúdios e produtoras e tal, que investem nesse tipo de coisa. Aqui no Brasil o mercado existe mas as vezes por essa desunião entre as ‘panelinhas’ nerds cada um prefere ter seu próprio evento voltado apenas para um publico especifico ao invés de se unir para uma coisa maior. ”
Pra quem tem preconceito com eventos deste tipo, Douglas ainda dá um recado “é difícil juntar um monte de nerd com opinião bem forte sobre as coisas, sobre o que gosta e o que não gosta, mas hoje a gente teve uma parada estelar: com trekkers e stormtroopers e fãs de Battlestar Galactica; tivemos uma parada mágica: com fãs de Harry Potter, Senhor dos Anéis e medievais; uma de cosplayers: anime e mangá; e uma de Zumbis, vampiros e filmes de horror. Todas saindo do mesmo lugar e terminando no mesmo lugar. Todo mundo se divertiu demais e rolou uma integração muito legal. Quem não veio perdeu uma ÓTIMA batalha de sabre de luz!”
Saí de lá por volta das 4 da manhã, com dores nas pernas (andei do final da São João até a praça Roosevelt em 20 minutos!) , alguns exemplares de quadrinhos em baixo do braço e com muito mais conhecimento e informação do que quando eu cheguei.
Quem não foi perdeu muito mais do que apenas a batalha de sabre de luz. Quem não foi perdeu o que pode ser primeiro de muitos passos para uma união entre os nerds no Brasil, cada um com seu interesse, mas todos juntos com os mesmo propósitos – que não incluem ir à balada, que ficou o tempo todo vazia. Afinal, em casa ou na Virada Cultural nerds continuam sendo nerds.
Aí embaixo você confere algumas imagens do evento. :)
