São 76 anos de vida, 52 de carreira e uma atuação muito ativa nos quadrinhos nacionais. Não é à toa que Mauricio de Sousa possui vários personagens icônicos nas HQs e, mesmo com tudo isso, consegue emplacar mais um grande sucesso: a Turma da Mônica Jovem, que vem batendo recordes, recordes, recordes e recordes e mais recordes de vendas.

Aproveitando o recém-anunciado crossover entre a Turma Jovem e os personagens criados por Osamu Tezuka, uma das grandes inspirações de Mauricio, o Judão entrevistou o quadrinista pra, do jeito certo, reinaugurar a mais nova seção do site: 8P, na qual sempre levaremos oito perguntas para importantes nomes da cultura pop no Brasil, do Mundo e, quem sabe, do Universo.

Como sempre, o papo com Mauricio rende. Entre outros assuntos, o quadrinista relata como Tezuka o influenciou desde o início da carreira e como foi o primeiro contato com o importante artista do mangá japonês. Há, inclusive, detalhes de bastidores, como o fato de que o encontro entre Kimba e cia. com Mônica Jovem e seus colegas demorou nada menos que dois anos para ficar pronto.

Mas essa não é a cereja do bolo: no papo, Mauricio relata que o projeto agora é levar o encontro entre seus personagens e as criações de Tezuka para os desenhos animados.

Claro que tem mais. Mauricio de Sousa ainda revela o desejo de criar novos encontros com a Turma da Mônica Jovem, mas envolvendo grandes nomes das HQs estadunidenses e europeias, como Hulk, Homem-Aranha, Asterix e Tintim. E sem medo de polêmicas, Mauricio faz críticas à tentativa de criação de cotas nos quadrinhos nacionais.

Quer ler tudo? Então tá! Está tudo aí, nas primeiras 8P do Judão!

Colaborou: Thiago Borbolla, Tayra Vasconcelos

    01 Sabemos que o Tezuka é uma de suas maiores influências. Como foi seu primeiro contato com o material dele?

    Mauricio de Sousa ~ Bem, o contato com o material dele aconteceu quando eu morava em Mogi das Cruzes, que é uma cidade que metade da população é japonesa. Metade da minha classe era de nisseis. Então os mangás, as revistas e livrinhos japoneses circulavam naquele tempo na minha mão.

    Eu não entendia nada, não lia japonês, mas ficava às vezes olhando, vendo os desenhos, e, naturalmente, os que achava mais bonitinhos, mais bem feitos e até com o traço que eu gostaria de ter, eram do Tezuka. E acidentalmente, coincidência ou não, não sei, quando comecei a desenhar lá mesmo, antes de virar profissional, alguns dos meus desenhos iam meio que na linha dele, porque ele tinha um desenho limpo, traço “firminho”, e eu achava que era bom porque não precisava enfeitar muito, não precisava ficar fazendo detalhes, arabescos e tudo mais na maioria das histórias.

    Quando comecei a fazer histórias em São Paulo, já profissionalmente, eu me dei conta de que estava com o desenho parecido com alguns desenhos japoneses, inclusive os dele, mas eu não me achava influenciado por ele, porque lia muita coisa. Eu via Spirit, eu via Li’l Abner [tira de humor criado pelo estadunidense Al Capp], lia Brucutu [o nome dado por aqui ao personagem pré-histórico Alley Oop, criado por Vincent T. Hamlin], lia material europeu também. Achava que estava então pegando uma mistura de tudo, um mix de tudo aquilo. E foi realmente isso, mas de uma forma simplificada. Meu desenho sempre buscou a simplificação, não porque eu achasse que isso devia ser um estilo, mas porque não tinha tempo de enfeitar, não tinha tempo de desenhar mais do que desenhava. Tinha que fazer realmente um estilo enxutinho, que era mais ou menos o estilo do Tezuka no início da carreira pelo mesmo motivo. Ele tinha que ganhar tempo.

    Então nós temos um início de carreira muito parecido, com os mesmos problemas, as mesmas durezas, a mesma cobrança dos editores, e por aí vai. Acho que isso aí vai sendo melhor pra gente, nos transformando em desenhistas ou mais objetivos, ou melhores profissionais, além de também mais conformados com a sorte, porque não é moleza o começo da carreira de desenhista.

    02 E qual foi seu primeiro contato pessoal com o Tezuka?

    Mauricio de Sousa ~ Foi quando ele veio para o Brasil a convite da Fundação Japão e, daí, nós nos conhecemos. Ele veio ao estúdio, batemos papo, sempre com bons intérpretes, né? Daí ele foi à minha chácara, e foi se aproximando cada vez mais. Houve então minha visita ao Japão, em seguida, para pagar a visita dele. E lá ele me mostrou o Japão, mostrou a cidade natal, me convidou para ir para a casa dele, me mostrou o museu que estava montando e que, agora, virou mesmo um museu. Ficamos muito amigos e, a partir dessa amizade, começou com a conversa de planejamentos futuros, coisas que poderíamos fazer juntos, incluindo, principalmente, esta junção dos meus personagens com os personagens dele.

    Osamu Tezuka, Mauricio de Sousa e seu bigodão sensacional no Brasil :D

    Mas naquele tempo não tinha inventado ainda a Turma da Mônica Jovem, tinha só a criançada, e eu e ele discutíamos como iriamos fazer para a criançada entrar nas aventuras, porque criança não pode largar do pai e da mãe. Tínhamos esse problema até que eu criei a Turma da Mônica Jovem e, então, se abriu a possibilidade e eu voltei a pensar na junção, no crossover de personagens.

    [Foi então que] Tive contato na Feira de Bolonha com o pessoal do Tezuka. Acho que até em cima de uma ideia que o próprio Sidney [Gusman, jornalista e responsável pelo Planejamento Editorial da Mauricio de Sousa Produções] tinha sugerido pra mim, de tentar alguma coisa com eles, e daí começou a história. Dois anos atrás eles autorizaram e, nos últimos dois anos, ficamos fazendo, produzindo estes dois exemplares que vamos lançar em seguida. Dois anos para fazer porque é muito material, foi e voltou, foi e voltou, porque eles estavam pedindo uma mexida aqui, alguma coisa ali, para ficar um material da melhor maneira possível.

    03 Inicialmente, ao menos, a ideia é que o projeto fosse um desenho animado. E aí acabou indo para o papel, não é?

    Mauricio de Sousa ~ É. Desenho animado, algo que ele tinha possibilidade de fazer, e eu não tinha. Então provavelmente ele ia produzir o desenho animado. Não deu e, agora, é mais fácil fazer no papel e depois transformar em desenho animado, que é o próximo passo, se tudo der certo.

    E há mais em cima desse “momento Japão”. Nós estamos planejando também mais uma história da Turma Jovem em que a turminha visita o Japão. Daqui mais algum tempo deve sair essa edição. Os meus roteiristas foram pra lá, pesquisaram para isso. Os dois roteiristas que estão criando a história são o Marcelo Cassaro e a Petra Leão [Nota do Editor: os dois, diga-se, autores do já clássico mangá nacional Holy Avenger].

    04 Falando em “próximos passos”, como você está pensando em expandir a Turma da Mônica Jovem. Algo como o Cascão Jovem ganhando superpoderes para concorrer com Marvel e DC?

    Mauricio de Sousa ~ Não, exatamente não, eles devem ficar como estão. De repente até pode tomar uma poção qualquer, um dia, e ficarem loucos. Não está no projeto. Mas está no projeto continuar com a busca de crossovers diferenciados. Pegar um Asterix, um Tintim, um super-herói, um Hulk, um Homem-Aranha e inventar algumas brincadeiras deste tipo, porque faz bem para os dois personagens. Mas isso nós estamos começando a sonhar agora!

    05 Recentemente estamos acompanhando a “polêmica das cotas”. Primeiro, uma nova lei de TV paga criou cotas mínimas de conteúdo nacional. Em seguido, um projeto que também cria cotas para HQs nacionais entrou em pauta. Como você vê tudo isso?

    Mauricio de Sousa ~ Com isso ou sem isso, o Brasil está subindo na produção de história em quadrinhos, estão surgindo grandes nomes da produção de HQs, até para exportação, como você sabe. Então quando o Estado se mete em um negócio que depende da vontade, da arte, da criatividade e, principalmente, do espírito empreendedor dos nossos criativos, eu penso até que o Estado de vez em quando, pode atrapalhar um pouquinho, porque começa a vir com algum tipo de cota para obrigar editoras e jornais a publicar material que esse pessoal não quer publicar, às vezes. Não quer ou não pode. E daí fecham-se as portas de uma vez. Eles falam “não vou publicar esse material e, já que eu não posso publicar esse para publicar outro, não publico o outro”. E daí ficamos sem uma e sem a outra coisa.

    Eu participei, nos velhos tempos, na pré-história, de uma campanha para a nacionalização das histórias em quadrinhos, mas depois, quando isso começou a tomar uns cunhos políticos, eu saí um pouquinho porque não era o que eu queria. O que eu queria era que prevalecesse a escolha do melhor material. Ou seja, a lei da oferta e da procura, aquela lei eterna, que funciona sempre e ninguém precisa ficar promulgando, ou alterando, ou fazendo alguma coisa. Eu penso que os bons desenhistas, os bons criativos, aliados, logicamente se não tiverem condições, a bons empreendedores e administradores, sempre estão com possibilidades de publicar, principalmente hoje, com a internet dando possibilidade a qualquer pessoa colocar o que ele sonhar e desejar no campo da arte para o mundo todo.

    06 Continuando a falar de HQ nacional… O que você tem lido ultimamente, o que você tem gostado aqui no Brasil?

    Mauricio de Sousa ~ No Brasil? Tá cheio de gente boa! O Sidney até faz uma coleção, sugere bons livros. Eu estou com um pacote de livros que o Sidney me deu para ler, para conhecer até mais e melhor os bons desenhistas e roteiristas brasileiros. No exterior também tem muita coisa boa surgindo.

    Acho que está havendo, até por causa da internet, um renascimento da arte. Não só da história em quadrinhos, mas também de charge, de ilustrações, de estudos… Porque minha teoria foi sempre de que qualquer pessoa pode desenhar. A pessoa pode desenhar de forma mecânica ou pode desenhar de forma criativa, meio amalucada. Geralmente os grandes estúdios do mundo são tocados, são levados adiante pelos maluquinhos, pelos loucos ou ousados que fazem coisas sem ninguém pedir, que nascem da cuca deles e tudo mais. E os outros desenhistas e artistas, ótimos profissionais, são os que têm o desenho mecânico, o desenho artesanal. Eu penso que estes são 95% de qualquer estúdio e, sem eles, não haveria nada do que estamos fazendo. Então nós temos que trabalhar juntos. O louquinho, com o comportadinho, senão não sai a história em quadrinho.

    07 Aproveitando a deixa da internet… No Twitter você tem um grande número de seguidores e está cada vez mais próximo dos leitores. Como tem sido esse contato mais direto com os fãs e o que você aprendeu de mais valioso nessa aproximação que o Twitter te deu?

    Mauricio de Sousa ~ Bem, falar com o pessoal, eu sempre falei. O Twitter me propicia, me permite falar com mais gente e online, falar na hora, em tempo real. Isso faz com que qualquer coisa que aconteça, ou elogio, ou crítica, sugestão, qualquer coisa, eu receba agora e amanhã já esteja fazendo. O que mudou é a velocidade da possibilidade. O que nós podemos fazer hoje com o auxílio das redes sociais e da internet é uma coisa que mal sonhávamos que pudesse acontecer na vida.

    zum, zum, - zum, zum - zum, zum - zum, zum ... tá faltando um? http://t.co/0kJ74MKh
    @mauriciodesousa
    Mauricio de Sousa

    Hoje nós temos que usar bastante disso, mas usar com parcimônia, com cuidado até, para não transformar em bate-papo fútil, em uma sala de chat, mas usar bem, ter um foco. Temos que falar “vamos fazer isto assim” e “isto eu não vou fazer”. Eu não vou bater papo, eu não vou entrar respondendo perguntas ou fúteis ou que não tem nada a ver conosco e, o que tiver a ver, o que for pertinente, eu respondo, eu vou buscar, eu marco para informar depois quando tiver a resposta. Eu estou presente no Twitter.

    08 E a última pergunta: de onde surgem as inspirações para os novos produtos, desenhos, projetos, enfim. É questão de pesquisa, observação, ou tudo não se passa de um plano infalível de uma criança que finge ser um adulto?

    Mauricio de Sousa ~ É tudo junto! Em um papo com o JAL [cartunista e assessor de imprensa do Mauricio], com o Sidney, com um desenhista ou com o pessoal do departamento comercial, nascem coisas. De repente percebemos na conversa que “nossa, isso poderia ser desenvolvido para tal lado, para tal negócio crescer desse lado, podemos criar mais um personagem para falar esse tipo de coisa…”. Então nos papos e nas conversas usamos o conhecimento, as pesquisas que já temos na cabeça, o histórico, tudo o que nós passamos e mais a vontade láááááá longe do garoto que queria fazer desenho e histórias em quadrinhos.