Provas, aquelas de colégio, não são experiências das quais lembramos com muito carinho. Normalmente são experiências traumatizantes, das quais esquecemos assim que o bimestre (ou o semestre) acaba. Não fujo dessa regra, mas existe uma prova, uma única prova, da qual lembro com certo carinho. Foi uma da 5ª série (será isso mesmo?), de Português. Lembro não por ter ido bem. Aliás, nem lembro a nota que tirei. Minha recordação se refere ao fato do tal exame ter vindo em formatinho, aquele clássico dos gibis infantis, com várias páginas de uma HQ do Cebolinha. Grande experiência, certo? Bom, de acordo com matéria publicada na revista Veja desta semana, não.
Ok, ok. Nem entrarei no mérito do quanto a Veja esta ultrapassada e do quanto a revista reflete o pensamento de uma parcela arcaica da sociedade brasileira. Porém, é inegável o quanto a publicação ainda pauta nossa sociedade e nossos governantes.
Por isso, dá medo ler a matéria “A Pedagogia do Garfield”, publicada na edição desta semana, de número 2238. No texto, o repórter Jerônimo Teixeira cita um estudo da UFRS, que afirma que histórias em quadrinhos estão tendo mais relevância no Enem – o Exame Nacional do Ensino Médio, aquela prova que está cada vez mais substituindo os vestibulares. Desde a primeira edição, em 1998, até agora, o Enem teve 32 questões com HQs, perdendo apenas para Poesia entre os gêneros literários e ficando na frente de Crítica e Crônica (ambos com 21), além dos Romances (com 20 ocorrências). Motivo de festa para os quadrinistas, mas não para os críticos que fizeram o estudo, muito menos para a Veja.
Na realidade a revista repete nas entrelinhas aquela velho discurso dos nossos pais. Quem nunca ouviu coisas como “quadrinhos não educam”, “HQs são gênero inferior”, “quem lê gibi não tem gosto por literatura” e coisas assim?
O texto inova, na verdade, ao falar que Jim Daves (o criador do Garfield) e Quino (da Mafalda) apareceram o mesmo tanto que Oswald e Mário de Andrade, além de José de Alencar (autor de O Guarani) nunca ter sido citado. Também critica o fato das questões de literatura estarem juntos no módulo “Linguagens, códigos e suas tecnologias”. E para piorar: o exame não cobra a leitura prévia de nenhum livro, como os velhos vestibulares faziam.
Não vou ficar aqui falando de pedagogia. Primeiro, por eu não entender. Segundo pelo assunto técnico ser muito chato para ficar colocando aqui. Porém, temos um exemplo prático de pedagogia na TV, veiculado quase que todos os dias na TV a cabo: a Supernanny.
Ok, pode parar de rir. Citei a Supernanny por ser algo prático, que qualquer político ou leitor da Veja poderia entender. Basicamente, Jo Frost nos ensina que temos duas formas de ensinar as coisas para as crianças: a lúdica, na qual ela pega gosto por aquilo, e a imposta, que ela faz apenas para se adequar ao dia a dia da vida na sociedade.
Sendo assim, a Supernanny dos faz pensar que literatura não é algo que deve ser imposto a uma pessoa. Ela tem que pegar gosto. E não será obrigando a ler um livro que isso irá acontecer, mas sim instigando a acompanhar algo do imaginário delas. Uma criança pode começar pelo Garfield, chegar na Mafalda, passar por Laerte e acabar com Rubem Braga, já mais velha. Ou nada disso, já que ela pode partir para um autor como André Vianco, mais ligado a sua realidade. Tudo isso sem, muitas vezes, deixar as boas histórias em quadrinhos. Afinal, vai me dizer que Sandman de Neil Gaiman não é uma ótima literatura?
Agora querer que alguém com 16 anos leia Camões e ache isso “legal” não é o melhor dos caminhos. E se esperar que ele pegue gosto pela leitura por aí, piorou.
Pelo menos muitos educadores vêm percebendo o quanto os quadrinhos podem ser úteis no aprendizado. Do quanto podem ser importantes para, por exemplo, testar a capacidade de compreensão de texto de um adolescente. E olha, vou te falar, compreensão de texto é algo em falta neste século XXI. Se alguém não entende Bob Thaves, como poderá compreender Machado de Assis!?
No final, a matéria ainda termina com a seguinte pérola: “O Enem contribui para construir um país ainda mais iletrado”.
Enquanto isso, guardo com carinho na memória aquela prova de Português da 5ª série, com o Cebolinha e seus problemas de fala, fazendo-o desenvolver uma nova língua sem “r” e “l”. Ficou perfeito, mas ele não podia mais se comunicar com ninguém, já que era uma língua que apenas ele conhecia.
Acho que foi ali que aprendi o que era metáfora, como se fosse uma aula dada pela própria Supernanny.
Obrigado, Jo Jo.
Nova coluna
Sim, sim. Esta é uma nova coluna aqui no Judão. A cada 15 dias, vou usar o espaço para falar de HQs. Vendas digitais, mortes e tudo mais serão temas que vão aparecer no futuro. Stay tuned!

