
Aquela sensação de “Eduardo e Mônica” acompanha muita gente que resolve passear pela ficção científica. A festa mais que estranha, com gente esquisita e, normalmente, em outro mundo, são alguns dos elementos do gênero. Mas a coisa muda de figura quando estamos falando de um planeta que foi construído pela Humanidade num futuro muito distante, onde dezenas de raças diferentes – incluindo dragões socialmente avançados – lutam pela sobrevivência contra a Hegemonia, o império que domina a galáxia. Tudo isso está presente em Hegemonia: O Herdeiro de Basten, recente livro de Clinton Davisson, que participa da Fantasticon, no próximo sábado, em São Paulo.
» Entrevista com Clinton Davisson
Muita gente pode pensar que se trata de mais um enlatado gringo traduzido, mas Clinton Davisson é o mais brasileiro que se pode ser. Natural de Volta Redonda, Davisson (batizado em homenagem ao físico Clinton Davisson) mergulhou na criação de um mundo espacial futurista que tem causado impacto entre os leitores – sejam eles habituados ao gênero, ou não. O Herdeiro de Basten é uma espécie de Cloverfield futurista. Anos depois de uma grande revolução, a armadura – derma – e as gravações do diário mental de Ron Schowlen são encontradas e o leitor faz uma visita a esse universo com planetas artificiais, realidade virtual utilizada ao extremo e, claro, boas pelejas.
O formato de diário dá um toque especial ao livro, que tem na narração em primeira pessoa seu diferencial aos inúmeros romances massudos disponíveis no mercado. Isso impede que várias perspectivas sejam abordadas numa mesma cena e não dá espaço ao narrador onipresente e permite um resultado muito parecido com o que seria um “blog de pensamentos”.
O assunto chave dentro de Hegemonia: O Herdeiro de Basten é a comunicação. Ou melhor, a falta dela. Jornalista de ofício, Davisson explora várias situações na qual a comunicação falha e provoca celeumas históricas e até mesmo guerras. Entretanto, obviedade é a última coisa que se espera desse livro. E aí está sua maior força em meio a um gênero bastante explorado, mas de histórico de vendas baixo no Brasil. Os autores são bons, mas o preconceito ainda afeta o desempenho das obras, na maioria dos casos. Hegemonia é um feliz caso de obra capaz de extrapolar seu nicho e atingir leitores casuais de outros gêneros.
Claro que, como obra de gênero, Hegemonia apresenta alguns elementos importantes da ficção científica, mas todos têm utilidade definida no objetivo de construir o mundo de Basten, as macronaves da Hegemonia e a realidade virtual para onde as pessoas estão migrando. Do mesmo modo, a imaginação fértil coloca o leitor perante algumas raças curiosas, impensáveis no nosso mundo, mas altamente realistas. A mais curiosa delas são os dragões, que tem espaço na capa de Osmarco Valladão (um dos principais responsáveis pelo sucesso das vendas deste título). Dotados de senso social, língua e de uma inteligência sem igual, essa raça surge no livro em seu ápice, proporcionando uma boa mistura de ação com ampliação do universo já amplamente desenvolvido nesse primeiro livro.
Sim, primeiro de uma série de três livros propostos pelo autor, cujo a entrevista exclusiva você pode ler aqui. O segundo capítulo já está em produção e deve ser lançando ainda em 2009.
Hegemonia é o primeiro livro profissional de Davisson que, em 1999, lançou por conta própria o romance Fáfia, que mistura futebol e ficção científica com bastante bom-humor e referências ao que hoje é chamado de cultura pop. Guerra nas Estrelas, Jornada nas Estrelas, 2001 e vários outros objetos de culto mundo afora pontuavam suas páginas. E, como toda estréia, algumas lições são aprendidas. O romance sofre com a ausência de um trabalho de edição mais ativa da Arte e Cultura, responsável pelo lançamento e, o pior de tudo, permitiu uma narrativa repetitiva em alguns pontos. Nada que atrapalhe a leitura mas, ainda assim, um descuido do time de edição.
A criatividade do autor salva o dia e impede que pareça apenas mais uma entre tantas tentativas do gênero no Brasil, mas, justamente o descuido em não exigir mais do potencial criativo evitou que Hegemonia se transformasse num sucesso maior do que já é. Nada mais justo, que haja respeito pela qualidade de um escritor e, acima de tudo, se entregue ao leitor o melhor produto possível. E Hegemonia deixa aquela sensação de “poderia ser tão melhor”, sem que isso, de maneira alguma, prejudique ou deprecie a obra.
De qualquer forma, Davisson cruzou a importante barreira que separa os grandes “potenciais” da literatura dos verdadeiros escritores. Ele finalizou sua obra e a publicou. E isso, no Brasil, já é uma grande vitória. As vendas dirão o resto. E há otimismo, uma vez que há planos de publicação do romance no prolífico mercado norte-americano. E ele até tem nome pronto para autor de pocket book gringo: Clinton Davisson!
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Hegemonia: O Herdeiro de Basten (2008) Site oficial: Hegemonia.com.br [ratings] |
