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sexta-feira, 4 de julho de 2008 | Atualizado em 06.07.08 às 16h56
Ele fala sobre a sua obra, influências e explica como o SMS poderia ter salvado a vida de Romeu & Julieta

Mesmo estando em Los Angeles, abandonar o mercado Brasileiro de ficção é difícil. Então, lá vai uma entrevista com Clinton Davisson, um dos autores da nova onda da ficção científica Brasileira — ou simplesmente FCB para os íntimos.
Ele é o autor de Hegemonia: O Herdeiro de Basten, romance de ficção que tem impressionado seus leitores e que teve a honra de ser indicado ao Prêmio Portugal Telecom de Literatura.
Quando você começa a escrever um livro, não dá medo saber que vai enfrentar um mercado fraco e problemático como o de Ficção Científica do Brasil? Parece mais maluquice do que os “civis” pensam de quem gosta do gênero.
Essa última parte de achar que é maluco é inevitável. Em qualquer lugar que você diz que escreve ficção científica te chamam de maluco. Eu fiquei meio preocupado com a resposta do Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC) e de outros autores. Mas eles foram os mais legais, o público que mais comprou, apoiou e acolheu Hegemonia. Até mesmo quando criticam, sinto como uma coisa quase “família”. Eu tinha outra imagem, de um povo monstruoso, que, durante as noites de lua cheia, viravam lobisomens comedores de corações. A acolhida deles foi a coisa mais importante, especialmente a Ana Cristina, atual presidente, o [Jorge Luiz] Calife, que prefaciou o livro. Ele é um sujeito fantástico e me apóia desde Fáfia, meu primeiro livro.
E a inspiração para a história? Tudo ali é muito esquisito, diferente, bastante alienígena, mesmo sendo o futuro da Humanidade. Mas a armadura legal é bacana!
Não era para contar que os disonianos são o futuro da humanidade, né? Mas isso está meio claro no livro. Então está bem. (risos) Comecei a pensar nisso quando tinha 5 anos, já brincava com Playmobil com um universo meio parecido com o que é a Hegemonia. Meu irmão me ajudou nessa fase e, curiosamente, o primeiro livro tem uma relação de irmãos. Um pouco de nós dois está em ambos os personagens. E tudo que eu assistia e lia foi influenciando esse mundo. Mesmo antes de Guerra nas Estrelas, que assisti lá pelos 8 anos, o cinema já influenciava. Por exemplo, eu sempre era o Vader e o Han Solo, meu irmão não era ninguém importante, pois tinha só 3 anos e não sabia brincar (risos). Por isso, inventei personagens para ele, para evitar que ele fizesse besteira com um dos mocinhos. E um deles é o Capitão Taylor, inspirado no Long John Silver da Ilha do Tesouro. Daí para a frente, até mesmo os filmes de Os Trapalhões ajudaram bastante.
Mas e no contexto literário? Transpor tudo isso da cabeça para o papel só com idéias de filmes não dá muito certo, não?
Sempre fui um rato de biblioteca. Meu maior contato com FC foi de lá, com Júlio Verne e HG Wells. Muita coisa de literatura clássica me marcou muito. Moby Dick foi um deles e o Crime e Castigo: o dilema do “que fazer e o que não fazer” me atrai muito. E Kafka, com o lance da rejeição em qualquer lugar que ele vai. O Ron não pertence à Hegemonia num primeiro momento, mas também não se sente mais em casa em seu próprio planeta. Muita inspiração inicial foi do poema Passárgada, do Manuel Bandeira, afinal, ele é não é amigo, mas é irmão do rei (risos). Incomoda voltar para casa e se sentir estranho. Ele perde a raiz.
Essa tendência de perder essa raiz é uma condição inevitável ou apenas fruto de um sujeito obstinado?
No começo, ele era chamado de Mestre Sholen, que era ranzinza e amargurado. Fiquei tentando entender como ele seria mais jovem. Ele se rebelou contra o que? Ele foi rejeitado por um sistema. Aquela guerra toda aconteceu muito mais por vingança e dor de cotovelo do que qualquer outra coisa. Um ponto interessante é que a Hegemonia não era tão má, não é um sistema nazista ou 100% odiável. Tudo que é visto no primeiro livro é fruto do ponto de vista do Ron. Com outras pessoas narrando, a versão muda. Assim como nossa própria história.
É aquele lance do sujeito que foi expulso da escola e diz que a culpa é dos outros?
[risos] O diário dele é editado, então ele tira tudo que não é conveniente da versão pessoal.
E com isso chegamos ao ponto interessante: o risco de escrever em primeira pessoa. E logo no primeiro livro profissional. Tinha tanta certeza assim?
[risos] Isso é pergunta de quem me conhece. É minha cara inventar coisa nova e não querer seguir o tradicional. Yoda disse que o caminho do Lado Negro é mais fácil e agradável, mas o Lado da Luz demora, só que compensa lá na frente. Fáfia mostrou muito disso, pois foi convencional e acabou virando mais do mesmo. E trabalhar como profissional de entretenimento me mostrou que as pessoas querem sempre mais do mesmo, infelizmente, mas esse mesmo tem que vir renovado. Tome os Beatles como exemplo, eles se reinventavam a cada disco. Hoje em dia a Madonna faz isso a cada seis meses ou até menos. É uma exigência de mercado. E esse risco com Hegemonia nasceu assim. A história é uma jornada do herói típica. Muitos arquétipos estão presentes, mas de modo pouco usual. O irmão faz isso, a sereia também, mas a grande “mestra” vai ser a amante dele. Ela vai unir as funções de heroína – algo bem Princesa Leia que vai pro batente – e ajuda na busca pelo conhecimento. Estudei bastante Campbell para falar disso.
E até agora as pessoas gostaram. O livro não explodiu na mídia, mas está exercendo a função de não deixar as pessoas indiferentes ao conteúdo. O que é bom. Sempre gera dúvidas e questionamentos, o que é interessante. Ninguém tinha dúvidas em Fáfia. Causar impressão negativa é melhor que impressão nenhuma. Hegemonia não nasceu para ser um sujeito simpático apenas.
Você ofereceu livro para quantas editoras? Quanto tempo levou para conseguir um contrato?
Todo mundo fala que é difícil, complicado e etc. Quando eu estava terminando de escrever, pintou uma editora sondando autores e eu mandei por descargo de consciência. Eles gostaram e quiseram publicar.
Foi pela internet?
Foi numa lista de discussão de fãs de Guerra nas Estrelas e outras “velharias”. Dá para acreditar?
E como o ilustrador Osmarco Valladão apareceu nesse processo? Uma boa capa acaba representando a maior parte das vendas, sem dúvida.
Osmarco é um profissional das antigas, já passou da casa dos 50, e foi o cara que me recebeu cheio de gentilezas. Encontrei com ele a primeira vez durante uma JediCon e descobri que ele era de Macaé, onde eu morava. Construímos uma relação e acabei mostrando Fáfia e Hegemonia para ele. Fizemos a capa em conjunto. Ele ligava tarde da noite para perguntar se o dragão soltava fogo e outros detalhes. Foi um dos pontos fortes do livro. Tem um trecho que ele me proibiu de publicar e tive que reescrever. Agradeço muito, pois, hoje, essa é uma das partes mais elogiadas pelos leitores.
Qual é?
Melhor manter em segredo! [risos]
Uma das curiosidades de Hegemonia é que você pega vários pontos tecnológicos e transporta para o dia-a-dia e chega a envolver a tecnologia até mesmo em elementos simples do meio-ambiente. Como, por exemplo, nanotecnologia envolvida em plantas.
O conceito da Esfera Dison [estrutura que envelopou o sol da Hegemonia] teve referência na série Cosmos, do Carl Sagan. “Meu deus, aquilo é maior que a Estrela da Morte!”, pensei. Dá para construir tudo quando se é capaz de criar uma esfera em torno do sol. Depois disso resolvi aproveitar os conceitos de nanotecnologia por conta do teletransporte de Jornada nas Estrelas. Se dá pra teletransportar matéria, por que não aplicar isso aos nano-robôs? As possibilidades são infinitas. Se você lembrar de Independence Day, pode-se dizer que o alienígena veste uma Derma [exoarmadura vestida pelo herói de Hegemonia].
Independence Day!?!?! Achei que você fosse sério. (risos)
Bom… Gosto de pensar que a minha maior influência vem da literatura clássica. Mas outro dia vi uma entrevista do escritor português António Lobo Antunes, dizendo que começou a escrever por causa das HQs de Flash Gordon e Buck Rogers. Então cheguei a conclusão de que escrever é igual a fazer cocô, o que sai depende do que entra por cima e, se for parar para esmiuçar o que saiu para tentar descobrir o que entrou, você vai acabar com as mãos muito sujas (gargalhadas ininterruptas de ambos os lados).
Você é um paradoxo, então? Tem influências clássicas, mas optou por um nicho pequeno e altamente segmentado.
Existe um racha entre literatura de FC e literatura geral. Até eu passei por essa babaquice na faculdade de achar: “Meu deus, escrevo uma literatura menor”. Vamos lembrar que Borges nunca ganhou um Nobel e muitos apontam, não posso dizer se é verdade, que esse fato se deu por ele ter esse pé no fantástico. Não vejo produtividade nesse racha. Existam os bitolados dos dois lados e preconceitos dos dois lados. A Fundação, por exemplo, tenho reservas, mas não tenho dúvidas de que Asimov seja um grande autor e ponto final. Stephen King é outro exemplo. É um bom escritor e ponto. Não é meramente um autor de gênero. José Saramago depois que ganhou um Nobel virou referencia de literatura boa e ele mesmo fica irritado com isso. Até nos clássicos vamos encontrar falhas. Existem personagens em Moby Dick que simplesmente desaparecem, pois o autor esquecia. Tem um episódio de Crime e Castigo que o autor confunde dia com noite. Mas isso não tira a força da obra. Unanimidades são burras.
Stephen King é considerado mainstream demais para muita gente, justamente por não escrever para nicho. E acaba encontrando reconhecimento em outros lugares como o meio acadêmico, por exemplo.
Acho que meu sonho é este, ser reconhecido como escritor e pronto. Pura e simplesmente, para poder passear pelos gêneros. Os grandes autores extrapolam esses limites. Por que não se espelhar neles?
Sua principal ferramenta de marketing foi algo ainda pouco usado para livros. Hegemonia tem um trailer. Isso fez mesmo a diferença?
Fez. Eu já trabalhei com TV e vídeo. Sempre gostei muito de cinema, mesmo lendo demais. Você vai se lembrar de uma espécie de prévia do Fáfia, feita em flash, lá pelos idos de 99, que acabou atraindo muita gente. Não fui o primeiro a fazer, mas vi muita coisa meio mal-feita. Vi o material de um livro de RPG chamado Crepúsculo. Depois vi o trailer do livro do Osiris Reis [Treze Milênios], que teve uma idéia bem sacada e bem-feita. Bom, ele é estudante de cinema, então já viu. Aliás, comprei o livro depois disso. E aí resolvi batalhar nesse fronte também. E o trailer ajudou muito nas vendas. Há outros programados para manter o assunto ativo até o próximo livro ser publicado. E, o mais curioso, é que outros escritores me encomendaram trailers.
Qual a pergunta mais interessante que você respondeu durante a divulgação de Hegemonia?
(risos) Além dessa? (mais risos) Sobre teorias da comunicação para o Overmundo.
Qual a mais porcaria?
(gargalhadas) Uma jornalista foi fazer a entrevista sem estudar a pauta e achou que Hegemonia era um histórico sobre FCB. Ela não sabia e tentou construir a pauta na hora, mas ficou toda perdida. Ela perguntou quanta pesquisa eu havia feito sobre FCB e quando respondi que não havia pesquisado nada, ela ficou indignada. (risos). Depois percebeu a besteira que fez. Como eu também sou jornalista e trabalho em jornal diário onde o ritmo é alucinante, já cheguei dezenas de vezes a uma matéria sem saber do que se trata. Mas é só você ter humildade e perguntar. Não tem que fingir que sabe.
Falemos de Teoria da Comunicação então. Como foi misturar um matéria tão exclusiva do curso de jornalismo num livro para tantos públicos diferentes?
Comecei a escrever a Hegemonia no segundo período de Comunicação. Minha faculdade era muito teórica, com teoria da recepção, autores frankfurtianos, e etc. É como eu disse: literatura é igual bosta. O que sai é o que entra depois de ser processado. Se tudo que eu lia focava nesse assunto, era inevitável que o livro traduzisse aquele conteúdo. Foi batata, fazer uma história na qual a comunicação fosse o principal elemento. E foi meio profético, como vi vários exemplos disso na minha vida profissional. Não imaginava, por exemplo, que empresas grandes como a Petrobras tivessem tantos problemas internos de comunicação. Lembro que a semente da idéia desde primeiro livro veio no filme The Big Red One, onde o personagem principal mata um alemão sem saber que a guerra tinha acabado. O cara gritava em alemão que a guerra tinha acabado, mas ninguém entendia. Isso consome o soldado (Lee Marvin) pelo resto da vida. Fiquei muito marcado por esse tipo de situação. Outra referência é o episódio Darmok, de Jornada nas Estrelas, no qual uma matriz lingüística diferente gera um jeito novo de comunicação. São coisas tão sutis, comuns e verossímeis. Mais pra frente o Frank Herbert vai influenciar muito.
Há algum objetivo maior nessa proposta?
Se não valorizarmos a comunicação estamos perdidos. A maioria dos problemas do mundo são frutos de falhas de comunicação. Analise a Faixa de Gaza, por exemplo, é um problema insolúvel se olharmos a raiz histórica. As pessoas que fazem coisas ruins acham que estão fazendo coisas boas. A comunicação tem uma função muito importante e todo mundo considera isso secundário. Extrapolando, o cólera é um erro de comunicação das células, que dizem uma para as outras que precisam expelir água. Concordo com as teorias da semiótica, de que a comunicação está em tudo. Romeu e Julieta é o exemplo máximo. Não tinha e-mail na época. Um SMS poderia ter evitado que eles morressem! (risos)
Os leitores perceberam isso ou foi sutil demais?
Muita gente me cobra menos sutileza, que as coisas precisam ser mais explícitas, se não fica parecendo autor europeu. Fiz um grande apêndice explicando, por exemplo, algumas atitudes dos personagens: porque Ron é tão revoltado e porque Dúnia, sua irmã, simplesmente pára de falar com ele por metade do livro. Mas o apêndice ficou muito grande e eu achei que era explicação demais. Preferia que o leitor preenchesse as lacunas com a própria imaginação. Mas tenho que rever isso para a segunda edição. Imagino que se Machado de Assis publicasse Dom Casmurro hoje, iam chegar para ele e dizer: “Amiguinho, você esqueceu de deixar claro se houve ou não traição de Capitu. Que vacilo, ein?”. Mas tem outro lado dessa moeda. Como eu disse, é burrice você não aproveitar a experiência das pessoas. E há vários casos em que certas convicções do autor podem detonar a obra. O Khaled Hosseini, por exemplo, queria um final trágico para o Caçador de Pipas, mas foi convencido pelos amigos a fazer um final que ficou bem melhor. Não tem melhor exemplo do que George Lucas que, a partir do momento que teve toda a liberdade criativa para fazer sua nova trilogia Star Wars, quase destruiu tudo de bom que havia feito. Então, procuro ser sempre aberto a opiniões.
Quanto tempo de trabalho em Hegemonia?
E nesse meio tempo você venceu o Concurso Nautilus, na edição que foi realizada pela Sci-Fi News.
Sim, o Nautilus foi importantíssimo. Foram 3 meses fazendo algo só para o concurso. É a mesma história da época, mas ficou mais gordinha agora, na verdade engordou 200 páginas. Eu ainda me pergunto o que levou tanto tempo pra só engordar. Gente, que coisa! A estrutura era a mesma, a linguagem dos dragões já existia e só precisei dar volume e aprofundar alguns conceitos e personagens. Mas assusta a quantidade de tempo gasto na lapidação do livro. Tem a vida de jornalista também que tira todo o nosso tempo, né? Se eu tivesse uma profissão menos alucinante como bancário, astronauta ou domador de crocodilos, acho que escreveria mais rápido (risos).
Comentários
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Hegemonia: O Herdeiro de Basten | JUDÃO
[...] de Clinton Davisson, que participa da Fantasticon, no próximo sábado, em São Paulo. » Entrevista com Clinton Davisson Muita gente pode pensar que se trata de mais um enlatado gringo traduzido, mas Clinton Davisson é [...]
4 de julho de 2008 às 23h01
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Ésquilo
O trailer realmente ajuda a vender a idéia, só não curti o elogio ao stephen king, que é ruim pra caramba =X
5 de julho de 2008 às 19h16
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mxrrx
5 de julho de 2008 às 21h43
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Nieryka
Muuuito legal! Adoro saber como autores, diretores, que seja, fazem seus trabalhos! Adoro as idéias e inspirações por trás de cada linha…aiai…ele está de parabéns, assim como o Judão, por dar a dica! E Stephen King é bom, sim! O cara SABE contar uma estória. Pra quem já leu não só os livros tarimbados dele, os mais conhecidinhos, sabe q o homem é fera na narrativa! Não adianta enfiar um monte de idéia se não souber apresentar de um modo que se entenda!
8 de agosto de 2008 às 22h59
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