
Caros leitores judônicos, vocês devem se lembrar claramente quando, em uma das minhas colunas, eu disseque parte da imprensa especializada em música do Brasil tem uma tendência a replicar um péssimo hábito de seus colegas de profissão láááá da Terra da Rainha, elegendo semanalmente uma banda e/ou artista ao status de “sensacional-monumental-revolucionária-fantástica”. É sempre hora de descobrir os novos Ramones o próximo Bob Dylan ou os sucessores do Nirvana. E tomem notinhas, matérias, entrevistas, resenhas, artigos e toda a sorte de material a respeito deste coitado deste sujeito, cujos ombros passam a carregar uma imensa responsabilidade que vai muito além do simples fato de “fazer música” — que, creio eu, é o que o caboclo quer da vida, afinal de contas. Músicos de verdade querem fazer música em primeiro lugar, e não ser erguidos ao status de ídolos. Primeiro vem a música, depois a fama. Fama apenas pela fama é coisa passageira.
Pois bem, queridos. Devaneios à parte, o fenômeno pode ser claramente visualizado na verdadeira febre midiática tupiniquim que agora atende pelo nome de Mallu Magalhães. Não conhece? Estamos aqui para isso. Dá uma entrada no MySpace da garota. Então. Ela é uma jovem paulistana de 15 anos que sempre gostou de música, coisa e tal. Ela escreve, toca e canta, os pais sempre deram o maior apoio. Mas, ao invés de bobagens que outras meninas de sua idade gostariam de ouvir como Avril “Eu Odiava a Britney Spears e Agora Virei Uma Vadia Como Ela” Lavigne e a insuportável Rihanna (ARGH!), Mallu prefere um folk-rock mais indie, numa levadinha simpática de violão acústico, a la Belle and Sebastian. A menina também é fã declarada do clone do Zé Bonitinho (ou seria do Vincent Price?) Bob Dylan. E também do country-maldito de Johnny Cash. Inusitado, eu diria. E acho que foi o mesmo que pensou o colega Lúcio Ribeiro, jornalista e blogueiro do Popload, quando viu Mallu Magalhães soltando a voz num concurso musical estudantil, entre tantos clones emos do CPM 22 e do NXZero. Ele falou sobre ela em sua coluna semanal. E abriu uma caixa de pandora que não parece ter fim.
Há cerca de dois meses, ela está em todos os noticiários especializados possíveis e imaginários: na Folha de São Paulo, na Capricho, na Rolling Stone, dando entrevista para o Jô Soares, se apresentando no Altas Horas, fazendo intermináveis chamadas promocionais para a MTV. Seu telefone não pára de tocar, ela já tem uma série de apresentações agendadas e até foi alvo de comentários fora do país. Uma loucura. E também um processo potencialmente perigoso para uma garota que, repito, tem apenas 15 anos. As pessoas parecem não atentar para este fato. Pensam: “Puxa, que legal, tanto talento e ela só tem 15 anos”. Eu, por outro lado, só consigo pensar: “Puxa, tanta atenção e ela só tem 15 anos”. Calma aí, meu povo. Vamos dar um freio nesta história. A bola de neve ficou maior do que ela mesma pode suportar.
Preciso deixar claro que, como pauta para um jornalista inteligente e escolado como o Lúcio, a Mallu era realmente ideal e inevitável. Bingo. Mas devo dizer que sou contra a verdadeira manada de fãs que seguem tudo que ele escreve e/ou recomenda de maneira quase religiosa, transformando a Mallu e qualquer outra cantor/cantor/grupo em tendência obrigatória. Sinceramente, acho que nem ele, o próprio autor, deve ficar satisfeito ao ser colocado num pedestal e ter aos seus pés um monte de seguidores que mal sabem formular suas próprias opiniões, um grupinho de ovelhas indies. A idéia dele, assim como a minha por aqui, é provocar, instigar, fazer leitores, ouvintes e espectadores digerirem a informação cada um de sua própria maneira. Não é errado ouvir o som da Mallu Magalhães e dizer: “cara, eu não gosto disso”. Você não vai ser menos cool ou menos hype por causa disso.
Mas não. O Lúcio falou, então a Mallu é sensacional. Vou colocar no meu blog, jogar no meu Orkut, adicionar no meu MySpace. Ela vai ser o novo Cansei de Ser Sexy. Afe.
Ponto número 1: não, não acho que a menina é uma porcaria (como acho o CSS, só para constar). As músicas são simpáticas, ensolaradas, divertidinhas até. Ela conta com uma espontaneidade infantil e com uma voz descompromissada que chega a contagiar. Mas peralá. Colocar a Mallu no mesmo balaio de gato do anti-folk de uma Regina Spektor ou da Cat Power é de um exagero monstruoso.
Mallu ainda está muito, mas muito crua. Não tem metade do estilo ou da sofisticação das anteriores. Ainda está começando, se desenvolvendo, encontrando seu caminho. Tem muito a aprender, muito pela frente. Não dá para dizer se ela vai se tornar uma nova Cat Power. Pode até ser. Mas rotular a pessoinha desta forma pode até prejudicar seu próprio desenvolvimento artístico, forçando-a a carregar um fardo pesado demais para alguém tão jovem. Basta ver as entrevistas que ela tem concedido: ela bem que pode gostar de Dylan e Cash, parabéns, mas ainda fala com aquela simplicidade quase irritante da geração MSN, mesclada com uma timidez praticamente monossilábica. Ou seja: ela fala pouco e fala mal. Mas não é culpa dela. Afinal, ela precisa dar tantas entrevistas assim? Como diria o elevador do Pica-Pau: esta viagem é realmente necessária?
O ponto número 2 é justamente sobre isso, e me leva a crer que tamanha superexposição é perigosa porque pode ter justamente o efeito inverso. Quem acompanha regularmente o mundo da música pode não agüentar mais ouvir falar de Mallu Magalhães para cá, Mallu Magalhães para lá, Mallu Magalhães no banheiro e na cozinha. Eu mesmo já começo a me irritar com tantas manchetes repetidas e óbvias, dizendo as mesmas coisas e replicando os mesmos comentários primordiais que o Lúcio fez quando garimpou a adolescente de seu recanto virtual. Como pai que sou, espero de coração que o casal Magalhães tenha consciência de tudo que está acontecendo ao redor da Mallu e estejam 100% presentes ao seu lado, esclarecendo o que é e o que não é. Para que as coisas não subam à cabeça, para que ela mantenha os pés no chão e continue calcada na realidade. Não são poucos os casos de popstars teenagers que, desacostumados com este reluzente mundo novo debaixo dos holofotes, acabaram seguindo caminhos nada recomendáveis…
Deixem a garota crescer primeiro. Depois vocês decidem se ela vai ser musa do underground ou não.
